Foi Apenas Um Acidente podia se passar no Brasil, e isso já diz muito

A sensação depois de assistir Foi Apenas um Acidente é a de que parte da população iraniana não tem para onde correr. O longa dirigido por Jafar Panahi é bem interessante. Acima de tudo, pelo recado pacifista em meio a tanta violência que passa sua gente. E merece estar na briga por prêmios e tal.
Sem comparar (já meio comparando), a história que se passa no Irã também contém ingredientes políticos, situações que beiram o non sense, um humor na medida certa, e grande interpretação do protagonista, que traz a reboque o elenco.
Vahid Mobasseri, na pele de Vahid, parece tocar sua vida tranquilo, até escutar um barulho que imagina ser o mesmo feito pelo homem que o torturou.
Daí ele vai em busca de vingança, sequestra o cara, cujo apelido no Dops de lá era O Manco. Porém, diante das veementes negativas do homem - interpretado por Ebrahim Azizi - de que capturou a pessoa errada, ele recorre a um amigo para que confirme.
Dali em diante, o roteiro de Panahi apresenta um grupo heterogêneo. Umas quatro pessoas que também ficaram presas por um bom tempo e sofreram muito. Difícil não dar spoiler ou contar coisas que caracterizarão o longa de pouco mais de hora e meia (isso se não assistiu o trailer ou já não sabe mais ou menos), mas, tipo, entre as vítimas do suposto agente tem quem ache tudo uma loucura, quem quer acabar logo com o sequestrado, quem deseja realmente tirar a dúvida, e por aí vai. A solução nem sempre é fácil e unânime.
Quase uma Turma do Scooby-Doo, mas com ar de morbidade irônica. Foi Apenas um Acidente reserva dilemas morais (“não somos como eles”), (falta de) compaixão mesmo em cidadãs e cidadãos comuns, e, pra dar aquele tempero agridoce, humaniza a figura do acusado, ao exibir como um homem de família. Interpretada por Deinaz Najafi, a filha do Manco/Eghbal, manda muito bem nos momentos em que aparece.
As nuances na feitura do filme dão a ele um peso muito importante. Por conta da censura do regime iraniano, o longa foi filmado de forma clandestina. O próprio diretor já foi preso em 2022 e libertado no ano seguinte.
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes, o filme é conduzido sem ir pelo caminho excessivo do drama. Mesmo que os relatos das pessoas torturadas sejam, no mínimo, desconfortáveis de escutar, a ideia é de resiliência e/ou de deixar a revolta em um canto fechado de suas emoções. Apesar dos traumas que ficam para sempre, as pessoas tentam tocar a vida. Talvez, o subalterno do governo também? Aí é que o bicho pega. O quanto de culpa tem quem alega “só ter cumprido ordens”? É justo os algozes viverem normalmente depois? Como se nada tivesse acontecido? Sem ao menos um pedido de desculpas? A simples lembrança aperta gatilhos doloridos.
Autoritarismo, tortura, métodos, falta de conexão com o outro, parecem ser inerentes a qualquer regime/governante desta excrescência, seja no Oriente, nas Américas, enfim, em qualquer canto do planeta.
Difícil ficar em cima do muro diante dos dilemas da consciência de Vahid. Ao longo da história, enquanto se espera pelo desfecho, Panahi apresenta elementos cada vez mais “normais” ao personagem principal. Tipo, parece ser um tiozão gente boa, e menos um jarro com alça. Isso tudo com situações que, no Brasil, talvez não soassem tão surreais. Suborno, “jeitinhos”, assim como O Agente Secreto, o humor da obra iraniana tem um quê de, literalmente, todo mundo vai entender.
Porém, reafirmar é bom, não se trata de comédia. A coisa é séria. Opinião zero importante, em caso de corrida ao Oscar, é pau a pau com o badaladíssimo representante do Brasil.
Fico por aqui, se não assistiu, vale a pena. Se já viu e tal, minha empatia com Jafar Panahi aumentou ao ler texto de Amanda Mazzei e Yasmin Caetano, no site da CBN, sobre a vinda do cineasta a São Paulo no fim do ano passado. Pois eu ainda conheço muito pouco sobre a produção audiovisual feita no Oriente Médio, bem como o diretor de Foi Apenas um Acidente.
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