Torcida sangue puro brasileiro(a) versus meus olhos puxados


 Sabe, tenho de parar de se importa tanto. De sentir tanto. E aderir ao modo tanto faz.

No caso, tanto faz torcer para o Brasil ou para o Japão. Meus olhos puxados, sentença eterna de que não sou bem vindo no país que se diz acolher todo mundo.

Até acolhe, mas escolhe quando você pode ser “brasileiro”. Li um comentário em cima de um vídeo que usava o humor para lidar com a xenofobia (ela usou o termo racista, babaca), que dizia: o japonês só é brasileiro quando convém. Às vezes têm coisas que estão na cara e não vemos.


Fenômeno interessante: quando mais fico velho, mais incomodado eu fico. Não é a primeira vez que derramo isso por aqui. Que merda.

Penso que, desta vez, tem a ver com decepção, frustração na expectativa de, sei lá, se apegar ao “as coisas estão mudando e o preconceito é cada vez menos tolerado.”


Convivo com piadinhas, e, até casos de quase agressão desde que me entendo por gente. Seis, sete anos de idade. De lá para cá, pouco mudou. Utilizo o termo pouco com boa vontade desgraçada.

Volto ao presente tempo. “Abre esse olho, japonês!”, caraca, vindo de pessoas direitosas – ou de extrema direita – até é compreensível. Não aceitável, sim, só que esperar algo diferente é querer demais.


Quando vem de gente que se diz de esquerda, progressista, com grau de ensino superior à média geral, dói. Opa, espera aí que depois tem as risadas como acompanhamento.

Sei lá (eu sei, uso sei lá pacas, vai assim mesmo, foi mal), não entendo porque isso incomoda tanto. Vale o contrário? Tipo, “tira esse olho grande daqui, brasileiro!”.


Opa, tem mais, em pleno 2026, o momento quinta série persiste. “Vai torcer pra quem?” “Tá feliz hein, o Japão tá ganhando”. Meu, o que fiz pra ter de responder isso sempre que estas duas nações se enfrentam de alguma forma? 

Olha, não lembro de ter dito a um descendente de paraguaio, se ficou feliz quando o Paraguai bateu o Brasil em algum jogo, o mesmo com quem tem raízes em Portugal, Espanha, Arábia, Líbano, Itália, Alemanha. Ou, se entendi a História de forma certa, brasileiro/a mesmo/a teria de torcer para que, digamos, o Ederson formasse um clube com jogadores provenientes das aldeias. Ou, de repente, o Vini Jr fundasse um Sport Club Quilombola.

Não recordo de questionar outros descendente porque é totalmente nada a ver. E, na maioria dos casos, quando a brincadeira vem, o tom é bem menos agressivo.

Pode falar que exagero. Pode ser. “Ah, hoje deu vontade de te esganar com esse país que você nasceu”, me disseram em tom de descontração. Respondi, “mas nasci no Brasil?!”. “É, mas esses olhos puxadinhos...”. Difícil…


Opa, antes de tudo, início de segundo tempo, uma triunfante: “ele chegou, pesou o clima!”.

Acho que foram 50 minutos brutais que não passava faz décadas. Talvez por achar que o racismo recreativo e sua complacência/cumplicidade vieram de quem por vezes defendem suas causas: feminismo, LGBT, racismo, etc.

Fica a sensação, cara, que hipocrisia. O que faz se sentirem tão superiores, e aplicar coisas que seus opressores cometem?

Se doeram porque o jogador japonês “desrespeitou” o Brasil. Caraca, quem me dera eu ser alvo de coisa tão pesada assim em vez dessa xenofobia que tenho de engolir com sorrisos...amarelos. O intruso sou eu, desculpa, deixa eu me por no meu lugar e ficar pianinho.


Deu. Você não vai entender, mas agradeço o tentar.

Pode pensar aí, é coisa de chororô, coitadismo, vitimismo. Deve ser, mesmo. Sim, creio que pessoas negras e indígenas sofrem muuuuuiiiiito, mas muuuuuiiiiito mais. Porém, quem disse que é preciso comparar as dores? Se você faz isso deliberadamente, para justificar, tudo bem. Eu, não.


Admiro – não sei se é a palavra certa- os descendentes e japoneses que dizem serem bem resolvidos e torcem para o Brasil, e, depois, para o Japão. Inveja dessa bolha e/ou dessa casca adquirida. Espero que um dia eu chegue lá.

Por ora, 29 de junho de 2026, não me sinto brasileiro. Tento bastante, só que cansa. São muitos, muitas, que fazem zero questão de empatia. Sou um sem pátria.


Deu o desabafo. Não vou jogar nas redes.

Se você chegou até aqui, é porque é sem noção e, de alguma forma, gosta da minha companhia, ou, vá lá, do que escrevo.

Brigadão mesmo.

Vai torcida 100% brasileira!

Abraço

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