A Voz de Hind Rajab era para nos tirar da Faixa de conforto

 

Se ficou indiferente ao assistir A Voz de Hind Rajab, na boa, morreu por dentro. Não suporta filme de criança sofrendo, nem tenta. O longa dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania é um drama. Na acepção da palavra. Real.

Tropecei no longa de quase hora e quarenta minutos após ler um tweet do Sérgio Xavier Filho, mês passado. Entre outras coisas, ele definiu como “soco no estômago é o aperitivo”. Desde então, confesso, entrei em processo criar coragem.

Bom, por esses dias, já tava meio de cara mesmo, chegar em casa depois de um trânsito detonado, semáforos bugados, árvores caídas, louça do almoço amontoada, e, ainda, fazer a janta…

Me senti pequeno depois de entristecer e indignar, impotente, durante e depois do filme que foi aplaudido pacas no Festival de Veneza, ano passado. Merecidamente.

“Eu estava no meio da campanha do Oscar por Four Daughters e me preparando mentalmente para, enfim, entrar em pré-produção de um filme que vinha escrevendo havia dez anos. Então, durante uma escala no aeroporto de Los Angeles, tudo mudou. Ouvi uma gravação de Hind Rajab implorando por ajuda. Naquele momento, sua voz já havia se espalhado pela internet. Entrei em contato com o Crescente Vermelho e pedi para ouvir o áudio completo. Tinha cerca de 70 minutos, de uma dureza devastadora. Depois de escutá-lo, soube, sem qualquer dúvida, que precisava abandonar todos os outros projetos. Eu tinha que fazer esse filme. Conversei longamente com a mãe de Hind e com as pessoas que estavam do outro lado da linha, aqueles que tentaram ajudá-la”. A fala é de Kaouther Ben Hania. Copiei lá da Wikipédia, mas a fonte mesmo é do site Deadline. Quiser ler a publicação clique aqui.

A Voz de Hind Rajab (Ṣawt Hind Rajab, em inglês), de início pode até parecer aqueles episódios apelativos de programas sensacionalistas, em que socorristas, policiais recebem o chamado e atendem a ocorrência sempre a tempo de salvar a pessoa. Em dado momento, até queria que fosse. Talvez a produção dramatizada e ambientada na Palestina ficasse mais confortável.

Baseado nas conversas por telefone de uma menina de cinco anos, que pede para ser socorrida de dentro de um carro que está na mira do exército israelense, o filme se desenrola ao mostrar o processo do Crescente Vermelho, espécie de serviço de atendimento de emergência palestino, para enviar uma equipe de resgate até o local. São menos de dez minutos de trajeto, teoricamente.

Na prática, a burocracia, a banalização (ou estado anestésico?) de tantas vidas tolhidas, transformam a ajuda em saga. De acordo com a história, para adentrar em território dominado por Israel tem de haver uma coordenação que passa pela Cruz Vermelha e, sério, forças armadas de Israel. Como questiona Omar, o primeiro a atender a ligação envolvendo a família de Hind, pedir liberação para ajudar quem está na mira deles? Bizarro se não fosse triste.

O personagem interpretado por Motaz Malhees parece ser novo no Crescente Vermelho. Carrega o ímpeto de tirar a garotinha da mira do tanque a qualquer custo. Bate de frente com o superior da seção, o Mahdi (Amer Hiehel), espécie de Lineu, tenta fazer as coisas de acordo com os procedimentos legais, o que impacienta Omar.

Daí entra Rana (Saja Kilani), telefonista com mais experiência – seria a pessoa da retenção (quem trabalhou em call center entende a referência). Além de acalmar seu companheiro de serviço, consegue se aproximar mais da menina e tenta entreter a criança até a ajuda chegar ao destino. Por telefone, ressaltando sempre. A solução limpa e simples visualmente utilizada nas transcrições é de uma eficiência cortante para quem assiste.

O que se segue seria um plantão 24 horas da vida real dos palestinos que (sobre)vivem na região de Gaza. A edição, os diálogos, as atuações, a falta delas de quem poderia resolver a situação, é capaz de tirar do sério qualquer um. Eu acho. Eu fiquei assim. Sei lá, porque tenho duas crias. Ou, nada a ver, e sim entra o fato de sem ou por querer a gente parece que perde a noção da merda que está aí. Ainda somos pessoas humanas?

Cada um com seus problemas, entretanto, tem problemas que é de envergonhar literalmente todo o mundo. Esse é. O que um casal de adultos com crianças dentro de um carro faria de atroz diante de um tanque de guerra? No limite do spoiler. Deixa quieto.

Se funcionar como carimbo de validação, entre os produtores executivos de A Voz de Hind Rajab, estão Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Jonathan Glazer, e Alfonso Cuarón.

E é isso, fica a fica.

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