Acho que não expectorei o bastante em Lispectorante

 

O problema de criar certa expectativa é a de que se corre o risco da frustração. É do jogo e tá tudo bem.

Fazia uma cara que tava a fim de ver Lispectorante, dirigido por Renata Pinheiro. Se ler essa groselha até o começo de outubro dá para ver no Sesc Digital, de grátis. Deve ter em outras plataformas também.

Lançado em 2024, pelo que li depois de assistir o longa ambientado em Recife, local em que a baita escritora Clarice Lispector viveu dos cinco aos 15 anos (chegou ao país vindo da Ucrânia com a família) e tal. Pessoal gostou muito do filme, ou não.

No enredo, Glória (Marcélia Cartaxo), é uma artista plástica que retorna à sua cidade, para a casa da tia. Daí em um dia, de andada pelo bairro da Boa Vista, centro da Manguetown (difícil eu não lembrar de Francisco Assis França),depara com a residência que um dia foi habitada por Lispector.

No imóvel abandonado, tenta espiar um pouco mais entre uma fresta, e daí inicia para valer o lado a lado de sua história com fragmentos alusivos à da famosa escritora (escrevia pacas, né).

Divorciada, sem grana, meio sem rumo, Glória encara situações que sua mente busca suportar, momentos ilustrados em uma voz no inconsciente encarnada em pessoa interpretada por Grace Passô, amorosos com o andarilho Guitar (Pedro Wagner), e cenas da vida adulta real – leia-se perrengue financeiro -, estas acompanhadas pelo parente Zacharias (Tavinho Teixeira), e sua amiga/atriz (Brenda Lígia).

Em pouco mais de hora e meia, o filme tenta se equilibrar neste paralelo entre o literário: “A salvação é pelo risco”, postula uma das frases mais famosas da escritora Clarice Lispector, que completa, “por pura alegria de viver”, que sem isso “a vida não vale a pena” (citação copiada deste link aqui). E a transposição para a realidade dura de Glória Hartman, que entrelaça com o abandono da cidade exibida pela direção de Renata Pinheiro.

Lembro que uma das coisas que me animara a assistir é a participação de Karina Buhr. Bem que, pessoal mais alternativo/independente/ou não de Campão podia trazer ela para uma apresentação. Gosto muito do trampo dela. Pego esse gancho para apontar que o surrealismo presente em Lispectorante foi dos pontos positivos apontados em opiniões lidas depois de terminado o longa.

Muita cor, performance, meio que marca registrada, Recife deve ser tentador na arte de transbordar para as telas uma imersão “suja” em sua urbanidade, transgressão que faz esta produção ficar distante de ser aprazível para um grande público.

Mesmo que tenham, sim, fotografia e cenários estilo cartão postal ou imagem de tela inicial, é visível a chamada de atenção para o coração de toda cidade média ou grande do Brasil.

Então, o pacote é de muita responsa, Recife, Lispector, real, imaginário, inconsciente, crise de vida adulta e... a impressão de que o roteiro não guentou. Cartaxo, competente como sempre, se esforça muito para que o filme seja capaz de furar bolhas.

Não sei, em dadas passagens o filme cai muito na previsibilidade. Por outro lado, é difícil reproduzir Lispector em qualquer campo. Especialistas citam A Hora da Estrela (1985), de Suzana Amaral, olha só, com Cartaxo a arrebentar, como ponto fora da curva. Assim, de cabeça, textei sobre o filme O Livro dos Prazeres e um espetáculo teatral Todo Redemoinho Começa com Um Sopro, de Campão mesmo, da Ofit Cia Teatral. Também ousei escrever sobre, em 2024, reabertura do Aracy Balabanian. Quiser ler depois, clique aqui. A peça de Nill Amaral, com Nádja Mitidiero, Samir Henrique, e Karine Araújo, achei bacana.

Em Lispectorante, penso que faltou uma liga, não sei. Vai ver, a ideia era mesmo pender para o lado mais experimental, artístico mesmo. Literal, literariamente.

Bom, encerro por aqui. Deixo aqui, um link com opiniões da diretora e do elenco. De repente, corrobore ou justifique impressões mais positivadas do filme. É lá do site Festival do Rio (sim, é o mesmo do lá de cima), clique aqui.

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