Há 40 anos, Vera já mostrava ser mais que uma questão de gênero

Tropecei em Vera por meio de algum vídeo curto de Instagram. Em minha defesa, no ano do lançamento do longa, eu tinha nove. De 1986, o longa dirigido por Sérgio Toledo completa 40 anos neste 2026. Imagina tratar sobre transexualidade naquela época, com a redemocratização ainda engatinhando.
Para pessoas trans então…
O longa de hora e meia mais ou menos provavelmente desagrade galera conservadora. Só por isso tem muito de atual. Tem problema, não. Depois, tiver a fim, acha fácil no YouTube.
Deixe o pré-conceito de lado e se ligue nessa sinopse lá da Wikipédia.
“Inspirado na autobiografia A Queda para o Alto, de Anderson Herzer. O filme é uma dramatização da história da vida real de Anderson Herzer (interpretado por Ana Beatriz Nogueira), um homem trans brasileiro que tenta se encontrar morando em um internato em São Paulo, mas é vítima de muitos preconceitos que traumatizaram sua vida eternamente. O elenco secundário é composto por Aída Leiner, Norma Blum, Carlos Kroeber e Raul Cortez.”
Então com 18 para 19 anos, Ana Beatriz ganhou o Urso de Prata de Melhor Atriz do Festival de Berlim. A produção foi indicada ao Urso de Ouro de Melhor Filme – categoria vencida pelo alemão Stammheim/A Gangue Baader-Meinhof em Julgamento - dirigido por Reinhard Hauff. Para quem a conhece mais pelos trabalhos em tevê, se surpreenderá positivamente. Sua performance é notável.
Entre outras premiações, o filme foi destaque nos Festivais de Brasília e do Rio de Janeiro.
Raul Cortez – olha só, este ano faz duas décadas de sua morte (nos deixou aos 73) - interpreta o doutor que tenta ajudar o jovem. Seu personagem foi inspirado na figura de Eduardo Suplicy, que na vida real foi quem tirou Bauer da então Febem, atual Fundação Casa. O diretor do internato interpretado por Carlos Kroeber (1933-1999), assim como Cortez, dispensa apresentações. Nível alto de atuação.
Aída Leiner é Clara, mulher que torna-se o amor do protagonista, e a relação é responsável pelos raros momentos de carinho e ternura do longa.
A moçada do internato dá conta do recado, interpretação marcante em cena(s).
A direção de Sérgio Toledo entrelaça a vida de Bauer no internato - que não foi um mar de rosas não, na Febem, lembranças dolorosas, então – e o recomeço estilo “normal”, de acordo com as regras ocultas e ao mesmo tempo explícitas da sociedade. Bater nessa tecla novamente: se nos anos 2020 é osso, ser trans na década de 80 deveria ser muito mais difícil.
O mais doido ou doído foi procurar saber mais do longa depois de assistir a uma das primeiras obras nacionais a abordar o tema. Dizer que gostaria de ler A Queda para o Alto é chover no molhado. Anderson Herzer é figura, no mínimo, instigante. Morreu aos vinte.
Nem passava pela cabeça a história ter Eduardo Suplicy. O cara da renda básica universal.
Vale a pena saber mais sobre “Bigode”, codinome do escritor e poeta nascido no Paraná. Dentre as coisas que li, há uma reportagem de 2015, no site Geledés, em que o político relembra um pouco de como conheceu e acolheu Bigode, em 1979! Tiver a fim de dar uma lida, clique aqui.
Opa, ia esquecendo, a trilha sonora ficou a cargo de Arrigo Barnabé. E, em um trecho tem performance da banda Mercenárias, com o clássico (para mim, é, ué) Me Perco (nesse tempo), me perco nesse tempo, me perco nesse tempo! Bom demais.
E é isso. Deu. Até deixaria o link para assistir Vera, mas como deve ter mais de uma opção, vou abster. De repente tu encontra canais com qualidade melhor de imagem e áudio que eu. Fica a dica.
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