Recital de flauta é interrompido em noite de muito azar, e tristeza

 

Qual a probabilidade de Campo Grande receber recital de flauta e piano apenas com instrumentistas mulheres? Não é comum. Talvez maior, bem maior, que chave de uma flauta, melhor, de duas, encerre noite que se programava bem legal no Teatro Prosa.

“Peço desculpas, a possibilidade disso acontecer é mínima, eu estudei tanto a obra (de Pattápio Silva)”. Foi mais ou menos assim, abalada, que Celina Charlier, tentava se explicar sobre o palco, no Sesc Horto, na terça-feira (11). Cara, quem não se sensibilizou na hora é que já morreu por dentro.

Seu esforço, até não poder mais, foi reconhecido pelo público presente. Entre palmas, frases de carinho e compreensão, a concertista de nível internacional, que mora no Rio de Janeiro, encerrou o recital. A apresentação abordaria o trabalho de Pattápio Silva, dos maiores compositores e flautistas da música brasileira.

Pelo início, creio que Celina apresentaria a “Belle Époque”, a história/carreira musical do genial afro descendente em forma cronológica. E, para situar o leigo – tipo eu - intercaladas com pílulas bibliográficas do fluminense nascido em Itaocara, 1880, e falecido em 1907, aos 26 anos.

O dama de Celina ocorreu por volta de uma meia hora de sua performance. Creio que após as execuções de Vitória, Margarida, o incidente incomum resolveu atormentar Charlier. Houve tempo de Maria Emilia Moura Campos fazer o belo acompanhamento no piano. A professora manda bem, né. Tinha tudo para ser mais um rolê que eu voltaria de boa para casa.


Não acredito muito, se acreditasse diria que os deuses da música erudita/popular estavam contra o momento “deixar flauta e companhia soando bem aos ouvidos”. Quando e peça principal da noite comunicou que a chave da flauta reserva deu ruim, foi de cortar o coração.

Sinceridade, fui pesquisar brevemente o que é chave de uma flauta. Resumidamente, “sua utilidade consiste em abrir e fechar orifícios ao longo do corpo do instrumento, variando a distância percorrida pelo ar dentro do instrumento e, consequentemente, a nota emitida.” É lá da Wikipédia. Que coisa…

Consternada, entre os inúmeros pedidos de desculpas, revelou que antes, entregara suas flautas a um luthier, no Rio de Janeiro, para que este deixasse os instrumentos à altura do que projetou para a sua performance. O resultado, afirmou a concertista, ficou péssimo. Recorreu então à flautas emprestadas, porém, o resultado foi inesperadamente negativo.

Aos prantos, Celina esboçou retornar a apresentação. Pediu um tempo para se recompor e deixou o centro do teatro. O bom senso da organização interveio e anunciou que o recital seria interrompido, em respeito à ela. Não havia clima.

Palmas da plateia encerraram a noite. Quem sabe uma outra hora tenhamos a oportunidade de assistir Celina Charlier e Maria Emilia Moura Campos em versão integral. Eu topo. E, certamente, Pattápio também.

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