De A Semente do Fruto Sagrado brota mais do que simples dica

 

A Semente do Fruto Sagrado perdeu o Oscar de Melhor Filme Internacional para Ainda Estou Aqui. Porém, é um grande filme. Tem mais de duas horas e meia. Pra quem guenta ficar esse tempo sem se distrair muito pode valer a pena.

Tudo bem, finge que o longa do iraniano Mohammad Rasoulof é dividido em duas partes. Achei uma pedrada. Lançado em 2024, com a França, ganhou o Prêmio Especial do Júri em Cannes. O drama-thriller de ficção - com muita coisa de verdade – é ambientado em uma Teerã tomada por protestos motivados pela morte de uma mulher pela polícia. Versão oficial: ela teve um AVC.

É nesse caos que Iman chega à capital iraniana. Recém-promovido à juiz de instrução, traz a mulher orgulhosa do marido, e as duas filhas, com as melhores das expectativas. Pelo menos na ótica dele e de sua companheira, Najmeh.

As coisas não saem bem como planejadas e culminam no sumiço da arma do pai de família dentro da própria casa. Então, de repente, nessa hora você pode dar uma pausa e imaginar que The Seed of The Sacred Fig (no original em inglês) tem partes I e II.

O filme mostra o contraste entre defender um governo teocrático. Ou, não. Poderia dizer que rola conflito de gerações em que de um lado está pai e mãe, e de outro, as filhas Rezvan e Sana. Ok, Rasoulof às vezes imprime um tom que beira o ativismo panfletário. As cenas – creio que reais – dos atos violentos e de protestos filmadas por celulares dão esse tom. Como técnica/estilo de filmagem nem reclamo, outras produções já fizeram isso. Não compromete em nada A Semente do Fruto Sagrado.

Pena o longa passar à margem do público em geral. Serviria para desmistificar, talvez um pouco, esse tom exótico quase xenofóbico estereotipado da mídia ocidental em relação à antiga Pérsia.

Que são um bando de doidos, só pensam em atear fogo em bandeiras, e morrer pelo seu deus.

Setareh Maleki e Mahsa Rostami mandam muito bem como as irmãs Sana e Rezvan. Tem anseios e a energia de jovens da idade dela, seja lá em qual parte do mundo fazem parte. Já diria a música, o novo sempre chega.

O filme exibe o bater de frente contra a tradição e a forma de governo vigente. Que - podem discordar mas sem me ofender, beleza?! – Trump fez o “favor” de alimentar a parte autoritária da atual administração “revolucionária” iraniana.

Em uma crescente, de situação em situação, o longa exala essa percepção que, ao mesmo tempo, as discussões e crises de relacionamento poderiam fazer parte de qualquer família brasileira por exemplo, e de como é difícil romper com o patriarcado e o ultra conservadorismo religioso. Como aqui, será? Taí um frei gilson da vida…(infelizmente exemplo é o que não falta).

A atuação do elenco é muito boa. Desde Missagh Zareh (Iman), passando pelas citadas Setareh e Mahsa. Deixei por último a mãe. Soheila Golestani seria uma espécie de Fernanda Torres no contexto. Tem uma parte em que as filhas são impedidas de dar um rolê para comprar material escolar, lembrei de uma cena de Ainda Estou Aqui. É, mais uma de minhas viagens...esqueça.

Notável em todas as variações do filme. Em seu personagem habita o reflexo estrutural, em que vive a dependência financeira e emocional causadas pelo machismo e os “bons costumes”. A pedida por uma máquina de lavar louça é caricatura disso

Depois, sua dubiedade em buscar um ponto de equilíbrio no trato do pai – ausente, diga-se de passagem - com suas filhas progressistas, e, por fim – eu acho – o combo de estresse, decepção, impotência, e resiliência para tentar virar o jogo a seu modo. Mãe que é mãe tá sempre presente. Pai também, óbvio (pelo menos deveria ser).

Na outra ponta, Iman ou se transforma ou se revela. O sumiço de sua arma é usado como gatilho – foi mal aí o trocadilho, é mais forte que eu – para mostrar que é nessas horas que a gente sabe como é a pessoa. Mas, sempre tem um mas, vai saber se foi fruto da pressão do novo cargo, ou do meio em que trabalha. As duas coisas? Nada a ver?

De quebra, o cineasta que vive exilado na Europa mostra o poder da internet. Do mesmo modo que a mídia é usada vez e outra como ferramenta estatal – ou pró-golpe como aqui né – a tecnologia, os smartphones aparecem como fundamentais para ajudar os opositores do regime – ou defender a democracia como aqui né – seja compartilhando imagens, ou - tudo bem, não faça isso em casa - como manejar uma arma. Detalhe para a sacada do criativo uso dos aparelhos antigos de som.

Percebe-se que de A Semente do Fruto Sagrado é capaz de brotar muita conversa boa. Sendo assim, fico por aqui. Vai lá, assiste.


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